Aborto de repetição

Definido como a perda fetal antes de 22 semanas de gestação ou a perda de um feto com peso inferior a 500 g, o aborto espontâneo é relativamente comum nas mulheres em idade reprodutiva. Quando ele acontece de forma recorrente, entretanto, passa a ser classificado como aborto de repetição (AR), um dos fatores de risco para a infertilidade feminina.

De acordo com a Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva (ASRM), duas ou mais perdas consecutivas de gravidez já definem essa condição. Os abortamentos resultam de anormalidades cromossômicas, genéticas ou uterinas, porém também estão associados a alterações no sistema imunológico, hormonais, doenças crônicas como o diabetes ou mesmo ao avanço da idade e hábitos como tabagismo e alcoolismo.

Após duas perdas recorrentes de gravidez, é fundamental que um especialista seja consultado para investigar o problema. Este texto aborda as causas do aborto espontâneo (AR), diagnóstico e tratamentos indicados.

O que pode provocar o aborto espontâneo?

Embora abortos espontâneos não tenham uma etiologia definida, eles podem ser provocados por diferentes condições, como:

Genética

Problemas genéticos relacionados ao desenvolvimento do embrião ou condições genéticas que afetam um ou ambos os pais podem resultar em abortos recorrentes.

Diferentes estudos apontam para a perda de gravidez precoce associada a anormalidades na composição cromossômica do embrião, que ocorrem geralmente no processo de maturação dos óvulos e mais raramente durante a maturação do espermatozoide.

Em alguns casos, um ou ambos os genitores podem ter uma anomalia cromossômica, resultando em um embrião com maior ou menor carga genética.

Anormalidades anatômicas

Anormalidades anatômicas do útero representam um percentual expressivo de casos registrados de aborto de repetição (RA). Elas interferem na vascularização do endométrio, levando a uma placentação anormal e inadequada e podem ser congênitas (ocorrem durante a gestação) ou provocadas por condições como aderências, miomas e pólipos uterinos.

Alterações hormonais

A função ovariana anormal com diminuição da produção de progesterona, denominada deficiência da fase lútea, é apontada como uma das principais causas de abortos de repetição.

Outras deficiências hormonais associadas à perda da gravidez incluem o hipotireoidismo, o excesso na produção de prolactina e desequilíbrios na glicose e na insulina. Além disso, mulheres com SOP (Síndrome dos Ovários Policísticos) correm maior risco de perda esporádica, embora raramente a condição seja associada a perda recorrente de gravidez.

Problemas de coagulação

Desequilíbrios no sistema de coagulação também estão relacionados aos abortos de repetição. A trombofilia hereditária ou adquirida, por exemplo, pode predispor as mulheres a trombose venosa e arterial, que provoca problemas no desenvolvimento ou função placentária e, consequentemente, o abortamento.

Infecções

A infecção do revestimento uterino ou endométrio por bactérias de crescimento lento, como o micoplasma ou o ureaplasma, ou por clamídia, também é associada à perda recorrente de gravidez.

Problemas imunológicos

Problemas que afetam o sistema imunológico têm sido também apontados como fator de risco para abortos espontâneos. Dois anticorpos, o anticoagulante lúpico e anticardiolipina, promovem a morte fetal, causando coagulação na circulação placentária precoce. Anormalidades de certas funções dos glóbulos brancos também têm sido sugeridas como uma causa potencial, embora não existam muitas evidências que comprovem essa associação.

Fatores ambientais

Alguns hábitos, como o alcoolismo e o tabagismo, podem aumentar as chances da perda de gravidez. Além disso, mulheres expostas a produtos químicos ou com trabalhos extenuantes também podem ter um risco aumentado de aborto espontâneo.

Em boa parte dos casos, entretanto, as causas que provocam o aborto espontâneo permanecem inexplicáveis.

Como diagnosticar o aborto de repetição?

Diferentes exames deverão ser realizados para apontar as possíveis causas de aborto espontâneo. Os primeiros procedimentos são o exame físico, que vai detectar alterações no útero, e uma análise do histórico da paciente. Além disso, deverão ser realizados os seguintes exames:

Exame de Cariótipo: um mapeamento dos cromossomos para diagnosticar alterações em ambos os pais. As células podem ser avaliadas por exame de sangue ou pelo líquido amniótico.

Níveis hormonais: exames de sangue para avaliar os níveis de hormônios no sangue, como prolactina, progesterona e hormônios da tireoide.

Ultrassonografia transvaginal: a ultrassonografia transvaginal é importante para avaliar o formato do útero e a presença de miomas ou pólipos endometriais.

Histerossonografia: a histerossonografia utiliza soro fisiológico estéril para expandir a cavidade uterina, permitindo uma visualização mais precisa.

Histerossalpingografia: é um exame de raio-X que utiliza contraste iodado para realçar a cavidade e as tubas uterinas.

Vídeo-histeroscopia ambulatorial (também chamada “diagnóstica”): cirurgia minimamente invasiva que permite a exploração visual das partes internas do sistema reprodutor feminino por meio de um histeroscópio.

Biópsia endometrial: uma amostra também poderá ser coletada para confirmar se há infecção que impeça a gravidez.

Além disso, deverão ser realizados exames para medir os níveis de glicose e detectar anormalidades no sistema imunológico. Já a investigação de trombofilia é recomendada apenas para pacientes com histórico de trombose venosa.

Qual tratamento é indicado para abortos de repetição?

O tratamento será definido de acordo com a causa apontada pelo diagnóstico.

Quando há problema de coagulação, a aspirina em baixas doses, que inibe a ação das plaquetas, pode ajudar a prevenir coágulos, mesmo no período gestacional.

Medicamentos anticoagulantes também são comumente usados para tratar trombose venosa ou embolia pulmonar, provocados pela trombofilia.

O tratamento cirúrgico é recomendado quando há alterações uterinas congênitas ou provocadas por miomas ou pólipos uterinos e tecido cicatricial. O procedimento geralmente adotado é a vídeo-histeroscopia cirúrgica, que utiliza um histeroscópio, tubo ótico com sistema de iluminação e câmera acoplada, possibilitando o acompanhamento em tempo real por um monitor.

A FIV (fertilização in vitro) pode ser indicada para qualquer caso, mas especialmente quando há problemas genéticos. Outros tratamentos incluem: controle de doenças como o diabetes, dos níveis hormonais e distúrbios da tireoide.

Mudanças no estilo de vida também aumentam as chances para uma gravidez bem-sucedida. entre elas a prática regular de atividade física, alimentação saudável e a eliminação de hábitos como tabagismo, alcoolismo.

Compartilhe:

Deixe seu comentário:

Deixe um comentário

  Se inscrever  
Notificação de